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Diante do Meu Próprio Reflexo: Em Memória de Yayoi Kusama

  • Foto do escritor: Erik Sadao
    Erik Sadao
  • há 5 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Tem artista que a gente admira de longe. Yayoi Kusama é uma das poucas cujo trabalho já me parou no lugar, fisicamente, em mais de um país. Dessa vez, foi a vez de Amsterdam onde passei os últimos dias treinando nossos guias aqui na cidade sobre sua vida, antes da retrospectiva no Stedelijk, que vai de 11 de setembro de 2026 a 17 de janeiro de 2027.


O que devia ser um briefing direto virou quase um elogio fúnebre. Kusama morreu em agosto, aos 97 anos, poucas semanas antes de o museu de arte moderna daqui revelar sete décadas do trabalho dela, e a exposição virou um tributo da noite para o dia. A gente vai guiar os clientes como sempre planejamos, mas a introdução à vida da artista ganhou outras camadas, e acertar esse tom, respeitoso, sem ser fúnebre, deu mais trabalho do que eu esperava.


A primeira vez que entendi por que ela importa tanto, aliás, não teve nada a ver com Amsterdã. Foi anos atrás, quando eu ainda morava no Brasil e visitei pela primeira vez o Inhotim, um dos maiores museus a céu aberto do mundo. Parei na frente de um gramado cheio de bolas de aço espelhadas.


Yayoi Kusama com 'Yellow Tree / Living Room' na Aichi Triennale, 2010 © YAYOI KUSAMA. Courtesia da Ota Fine Arts and David Zwirner
Yayoi Kusama com 'Yellow Tree / Living Room' na Aichi Triennale, 2010 © YAYOI KUSAMA. Courtesia da Ota Fine Arts and David Zwirner



Um Jardim Que Devolve o Olhar


Narcissus Garden
Narcissus Garden

Pisei no Narcissus Garden achando que ia ficar uns dois minutos. Fiquei quase uma hora, vendo meu rosto e o das pessoas ao redor se fragmentarem nas esferas curvas, esticados, engolidos pelo céu e pelas árvores. Eu não estava olhando para a obra, era ela que me observava. A mesma ideia por trás de uma história, hoje, mais conhecida. Uma jovem japonesa que, em 1966, não foi convidada pra Bienal de Veneza e foi assim mesmo.


Kusama chegou com 1.500 esferas espelhadas e, com a ajuda do artista Lucio Fontana, espalhou tudo na grama, do lado de fora do pavilhão italiano, sem convite nenhum. De quimono dourado, vendia as bolas por dois dólares cada, fazendo o papel de galeria, crítica e vendedora ao mesmo tempo, até os organizadores mandarem ela parar de vender arte "feito cachorro-quente ou sorvete". Mas o recado já tinha passado: todo visitante que se debruçava sobre uma esfera não via a artista, nem a obra, via a si mesmo, distorcido e repetido até o infinito.



Fico pensando como isso antecipa, com uma precisão absurda, uma ideia que o filósofo Byung Chul Han só ia nomear décadas depois. Em "A Salvação do Belo", ele argumenta que a arte contemporânea ficou lisa, glatt, arredondada, um espelho para que se admire o próprio reflexo. O exemplo máximo dele é Jeff Koons, com as esculturas de aço polido que gritam pela nossa atenção.


Kusama chegou lá trinta anos antes, sem nenhum polimento. Com suas bolas espelhadas baratas, vendidas num gramado feito bugiganga de parque de diversões, criou uma performance de rua sobre vaidade e a mercantilização da própria arte. É uma crítica mais afiada ao que Han chama de sociedade do desempenho do que qualquer coisa saída de um departamento de filosofia, e não é à toa que a obra parece feita pro Instagram. Foi feita exatamente pra esse impulso.


artista onipresente


Acho que não existe museu por onde eu já passei sem esbarrar numa Kusama. Uma abóbora, uma pintura de rede, uma sala infinita com fila na porta. Vi mais de uma retrospectiva completa dela, com anos de diferença entre si. Em nenhuma dei conta de ver tudo numa única passada. A artista manteve esse ritmo de produção impressionante até os noventa anos.

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Yayoi Kusama com uma de suas abóboras na Aichi Triennale 2010
Yayoi Kusama com uma de suas abóboras na Aichi Triennale 2010

Parte dessa persistência só faz sentido quando você conhece o resto da história. Kusama cresceu em Matsumoto, numa família que tinha um viveiro de plantas. Ainda criança, teve alucinações vívidas. Flores que falavam com ela. Padrões que dissolviam o quarto ao redor. Ela desenhava o que via para sobreviver a isso. Contra a vontade da mãe.


Um livro usado com pinturas de Georgia O'Keeffe abriu uma saída. Ela escreveu direto para O'Keeffe e se mudou para Nova York no fim dos anos 1950, quase sem nada. Costurou dinheiro dentro da roupa para passar pela alfândega.


Nova York a formou, e quase a destruiu. Ela pintou telas obsessivas cheias de redes, organizou "happenings" contra a guerra cobrindo manifestantes de bolinhas, e construiu sua primeira Sala Infinita de Espelhos. Também era, segundo todos os relatos, difícil de conviver. Protegia as próprias ideias com unhas e dentes, e acusava rápido demais.


Com razão. A instalação do barco, de 1963, um barco a remo coberto de protuberâncias fálicas macias e repetido pelas paredes e pelo teto, é três anos anterior ao Cow Wallpaper de Andy Warhol. Warhol viu a exposição e nunca deu crédito a ela. Ela passou anos insistindo que a Factory de Warhol, e também Roy Lichtenstein, tinham pego emprestado mais do que admitiam. Bolinhas que ela já pintava desde criança. Estar certa, e mesmo assim ficar de fora, como mulher japonesa fora do clube dos meninos, é uma tragédia silenciosa à parte.


No início dos anos 1970, sem dinheiro e doente, ela voltou para o Japão. Em 1977, internou-se por vontade própria num hospital psiquiátrico em Tóquio. Nunca saiu de verdade. Todo dia de manhã, caminhava até um ateliê ali perto para pintar.


Yayoi Kusama, na série Accumulation, 1964
Yayoi Kusama, na série Accumulation, 1964

Anos atrás, no Japão, pedi para meu amigo-xará-operador local, Eric Demay, meio de brincadeira, passar de carro por ali. Ele me olhou como se eu tivesse pedido para visitar a casa de um estranho. Justo, porque era exatamente isso. Fomos assim mesmo. Fiquei parado do lado de fora de um prédio no Shinjuku. Pensei em como todo aquele espetáculo de Veneza, o quimono dourado, a venda teatral do próprio reflexo, tinha sido armado por alguém que passaria o resto da vida entre quatro paredes que quase nunca deixava.



Cultuada e cada vez mais reConhecida



Aqui um interesse pessoal que não tem nada a ver com filosofia. Anos atrás, como diretor da Teresa Perez, preparei uma palestra guiada sobre a vida de Kusama para consultores de viagem brasileiros. Foi antes da primeira grande exposição dela no Brasil. Treinei a biografia até a sequência virar minha, as alucinações, Nova York, Warhol, o hospital em Tóquio. Entregamos um prêmio inspirado em sua obra naquela manhã. Lembro de pensar que muitos naquela plateia ainda não sabiam direito quem era aquela mulher. Isso não duraria muito.


Foi a Louis Vuitton quem transformou Kusama de lenda do mundo da arte em nome conhecido de todo mundo. Primeiro com Marc Jacobs, em 2012. Depois de novo com Nicolas Ghesquière, em 2023. As bolinhas dela pararam em bolsas e vitrines bem na hora em que Tate, Centre Pompidou e Whitney montavam suas maiores retrospectivas.


Voei para Londres para ver a exposição na Tate naquele mesmo ano. Foi a primeira vez que vi a arte puxar viajantes através de fronteiras em números reais. Filas dando a volta no prédio. Uma economia de viagens inteira construída em torno de uma única exposição. A mulher que um dia foi barrada por vender bolas espelhadas por dois dólares num gramado em Veneza tinha virado, meio século depois, o rosto de uma campanha de luxo. E o motivo pelo qual as pessoas voavam até ali só para entrar naquela fila. Duvido que essa ironia tenha passado despercebida por ela. Pouca coisa parecia passar.


O que me traz de volta a Amsterdã. Semana que vem, nossos guias vão ficar na frente dos clientes no Stedelijk. Vão abrir com uma versão dessa história que acabei de contar. A menina de Matsumoto, as alucinações, Veneza, o hospital, a Vuitton. Tudo isso comprimido no tempo de um café, antes de entrar nas salas.


Stedelijk Museum
Stedelijk Museum

Eu sempre volto, na cabeça, para aquele gramado no Inhotim. Para o meu próprio rosto se quebrando em cem espelhos pequenos. E para o fato estranho de que Kusama montou exatamente esse confronto, o nosso, com o nosso próprio reflexo, antes de quase qualquer um pensar em chamar aquilo de arte. Fiquei ali parado por horas porque não conseguia parar de olhar para mim mesmo.


Isso nunca foi uma falha no trabalho dela. Era exatamente o ponto, e ela sabia disso muito antes do resto de nós perceber. Espero que quem passar pelo Stedelijk durante a exposição sinta ao menos um pedaço disso.


A Sapiens Travel - DMC defende a sustentabilidade cultural e cria guias artísticos fora do padrão, guias que ligam os pontos e realmente se conectam com nossos clientes. Para a gente, legal e divertido importam mais do que cobrir cada fato, e é exatamente esse o espírito que estamos trazendo para a exposição do Stedelijk.


 
 
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