De Kooning: O Holandês Clandestino que Ensinou a América a Encontrar sua Própria Pintura
- Erik Sadao

- há 1 hora
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Neste mês de outubro, o Rijksmuseum inaugura “Willem de Kooning at Work”. Cem anos depois de deixar Rotterdam escondido em um navio cargueiro, o artista ganha uma ala inteira do mais importante museu dos Países Baixos, dedicada aos desenhos de um homem que passou grande parte da vida tentando esquecer de onde veio.

Acho quase irônico que isso venha de um país que adora lembrar ao mundo que nos deu Van Gogh e Vermeer. Desta vez, os Países Baixos exportaram um artista por acaso e levaram um século para chamá-lo de volta.
Vanguarda Americana, Descoberta Tardiamente
Conheci Willem de Kooning da maneira como conhecemos certos artistas. Não em uma sala de aula, mas diante de uma obra. Foi em um museu americano, diante de uma das pinturas da série Woman, aquela figura violentamente construída, com os dentes à mostra e um sorriso que parecia mais cortado do que pintado. Fiquei ali por mais tempo do que imaginava, ao mesmo tempo inquieto e fascinado.
Foi minha porta de entrada para o expressionismo abstrato, movimento que sempre me pareceu uma das manifestações mais honestas produzidas pela arte americana. Intenso, físico e sem pedir desculpas. É uma história que costumo contar quando acompanho grupos diante dos Mondrians no Stedelijk ou no Kröller-Müller e explico o que veio depois do De Stijl. O mesmo século que deu à Europa a geometria deu à América o gesto.
A Versão do Sonho Americano de um Clandestino
De Kooning nasceu em 1904, em um bairro operário de Rotterdam. Abandonou a escola aos doze anos para trabalhar como aprendiz de decoradores comerciais e completou sua formação em cursos noturnos. Nada nessa história apontava para Nova York.
Em 1926, aos 22 anos, embarcou clandestinamente em um cargueiro britânico e desembarcou em Newport News, na Virgínia, sem visto e sem qualquer plano.
Chegou a Manhattan pintando casas e trabalhando como carpinteiro, quase sem falar inglês. Não era o imigrante que chegava com uma ideia. Era aquele que chegava sem nenhuma e inventaria a sua uma década depois.

a escola de ny
No final da década de 1940, um grupo de artistas começou a se reunir em torno do Cedar Tavern, em Nova York. De Kooning, Jackson Pollock, Franz Kline, Lee Krasner e Mark Rothko estavam entre eles. Juntos, formariam o núcleo do que ficou conhecido como Escola de Nova York.
Quase sem perceber, criaram o primeiro movimento de vanguarda genuinamente americano. Pela primeira vez, a arte produzida nos Estados Unidos deixava de olhar para Paris em busca de referências e passava a influenciar o restante do mundo.

De Kooning e Pollock nunca foram amigos confortáveis. Eram dois homens disputando o mesmo lugar dentro de um círculo pequeno demais para ambos. Pollock chegou primeiro, lançando tinta sobre telas estendidas no chão. O próprio De Kooning reconheceria sua importância em uma frase que ainda circula pela história da arte. Pollock havia “quebrado o gelo” para todos eles.
Anos depois da morte de Pollock, em 1956, De Kooning mudou-se para a mesma região de Long Island onde seu rival havia vivido e pintado. Uma coincidência geográfica que parece escrita como roteiro.
a arte como soft power

O que os textos nas paredes dos museus nem sempre contam é que o movimento também recebeu uma ajuda inesperada.
Durante a Guerra Fria, a CIA financiou discretamente exposições internacionais dessas obras por meio do Congress for Cultural Freedom e de conexões ligadas ao MoMA.
A lógica era simples. Telas sem uma mensagem política explícita podiam se tornar um poderoso argumento em defesa de uma sociedade livre. A abstração transformou-se em instrumento de poder cultural muito antes de falarmos em soft power. De Kooning, sem precisar assinar qualquer compromisso com ninguém, tornou-se parte de um tabuleiro geopolítico simplesmente por permanecer fiel à própria pincelada.
o resto da história é como um curriculum
Cidadania americana em 1962. East Hampton no ano seguinte. Décadas retornando à mesma questão sobre a figura feminina e a própria violência de representar qualquer coisa. O Alzheimer marcou seus últimos anos. Suas últimas pinturas foram concluídas em 1991. Morreu em 1997, aos 92 anos.
Em algum ponto dessa trajetória, surgiram telas que hoje valem centenas de milhões de dólares, pintadas por um homem que um dia cobriu as paredes dos outros para conseguir pagar o próprio aluguel.
DE VOLTA AOS PAÍSES BAIXOS
Continuo retornando ao Rijksmuseum porque é ali que essa história fecha seu ciclo. A exposição de outubro de 2026 não trata de Pollock nem da CIA. O foco está no desenho e em um De Kooning que esboçava, corrigia e continuava surpreendendo a si próprio ao longo de 65 anos de trabalho.
Em Rotterdam, o Fenix, museu dedicado às histórias de migração, abriga atualmente três esculturas de bronze do artista, emprestadas pela Hofplein enquanto a praça passa por uma renovação. Elas estão justamente no cais de onde De Kooning partiu a bordo do SS Shelley, em 1926, e retornarão à Hofplein em 2027. No interior do museu, a pintura Man in Wainscott integra a coleção permanente.
Um século depois de partir dali quase sem ser notado, o mesmo cais finalmente lhe dá as boas-vindas.
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É esse o espírito que levaremos às exposições dedicadas a De Kooning nos Países Baixos durante a próxima temporada de inverno.


